Houve uma vez um terremoto

O ano era 1976 e a previsão do meu nascimento era para o mês de abril. Estava tudo certo até que um terremoto de 7.5 graus sacudiu a Guatemala, país onde minha família morava. Minha mãe nunca tinha vivido uma experiência como aquela e ficou assustada com aquela tragédia. Meu pai não perdeu muito tempo, na primeira oportunidade, embarcou a esposa grávida e as filhas num voo para o Brasil com destino a Porto Alegre, onde minha mãe contaria sua trafica história a um jornalista da Zero Hora.

Photo by Roberto Nickson on Unsplash


Há 50 anos daquele inesquecível fevereiro, muitos relatos reviveram o terremoto que deixou 23.000 vítimas fatais. Naquele tempo, não existia internet, nem redes sociais. As notícias viajavam em outra velocidade, mas quando acontecia uma tragédia dessa magnitude, o mundo todo ficava sabendo rapidamente.


Nem todo mundo conhece esse pedaço da minha história. Eu vivi um terremoto na barriga da minha mãe. Nasci em Porto Alegre no Hospital Fêmina num 20 de maio. A mãe diz que eu estava descascando porque passei do ponto. Gosto mais da minha versão: estava melhor na barriga dela, por isso, eu não queria sair. 


Quando nasci, meu pai estava desempregado e nossa família morava em Canoas porque foi o lugar onde os familiares conseguiram uma casa para a gente morar até que a situação melhorasse. Aquela era a segunda e última vez que meus pais tentavam a sorte no Brasil, eles já tinham feito uma tentativa antes, sem sucesso.


Por isso, antes da minha mãe viajar ao Brasil, meu pai deu uma espécie de ultimato. Perguntou várias vezes a ela: tem certeza de que é isso que você quer? No calor da emoção, do medo e do desespero, ela disse sim. Foi por causa desse terremoto que eu nasci no Brasil. 


Minha finada vó Lélia me chamava de “terremontina” sem saber que anos depois a neta estaria vivendo num país sísmico. Talvez essa experiência tão intensa tenha me preparado para morar no Chile, não sei. Já passei por vários tremores de terra aqui e um terremoto em 2015. Sempre procuro manter a calma e fico atenta a alguns detalhes. 


Por exemplo, não gosto de deixar nada atrapalhando a circulação na casa. Afinal de contas, na hora em que você precisa sair correndo até a porta, quando mais rápido, melhor. Essa é a primeira e principal lição que se aprende morando em país com terremotos: abrir a porta. 


A gente não costuma deixar a chave do gás aberta. Quase todos as cozinhas novas têm a chave ao lado do fogão para cortar se você não estiver usando. Não costumo dormir sem roupa porque os terremotos quase sempre são de madrugada. É muito comum as pessoas andarem na rua depois do terremoto de pijamas ou roupa interior porque acordam de surpresa e, na hora do susto, ninguém tem muita cabeça para pensar na etiqueta. 


Espero não viver outra tragédia na minha vida além da que eu experimentei na barriga da minha mãe. A gente nunca sabe quando vai viver algo assim. Uma coisa certa: são eventos que marcam para sempre a nossa história de vida. 

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