Seja feliz, please!

Em 1996, comemorei meu aniversario de 20 anos com alguns novos amigos da faculdade. Era meu primeiro semestre do curso de Jornalismo.

Daquela turma, conserso uma amizade, que considero bem especial, o Eric. Mantemos contato ate hoje e, sempre que possível, nos reencontramos.

Digo isso porque vivemos em cidades distintas: eu Brasília, ele Rio. Alguém poderia dizer: nossa, ele está muito melhor! Será? Pode ser, por vários motivos, mas não necessariamente por estar no Rio.

Essa semana uma reportagem na televisão mostrou uma pesquisa da Anvisa que revelou que o Rio de Janeiro é o estado onde as pessoas mais fazem uso de ansioliticos – remédios para controlar a ansiedade.

Em seguida aparecem Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. Tirando os pampas, todos os lugares no topo do ranking estão localizados no litoral e as capitais têm praia.

Como explicar esse resultado então? Por que em cidades com praia, cercada de belezas naturais, as pessoas teriam mais motivos para consumir ansiolíticos?

Além da falta de segurança, que imagino deve afetar, e muito, o estado psicológico dos moradores, acredito que uma tendência é que a exigência de ser feliz nesses locais é maior ainda.

Ser feliz tornou-se uma exigência da nossa sociedade. O uso de ansiolíticos e antidepressivos ajuda a amenizar os efeitos da tristeza e da depressão.

Se já é difícil estar triste ou mal humorado num da nublado e cinza, imagine num dia lindo de sol.

O marido de uma amiga costuma dizer que odeia os domingos de sol por esta razão. Nessas condições, ele se sente obrigado a ser feliz e essa obrigatoriedade o irrita.

A obrigação deve ser maior ainda quando se vive numa cidade com praia. E não é só em alguns lugares que essa obrigação do ser feliz é maior. Ela também aumenta em determinadas época do ano.

As campanhas publicitárias, tão ternas nas festas de fim de ano, são a melhor representação dessa imposição. Será que é por isso que nessa época de fim de ano os casos de suicídio aumentam consideravelmente?

Tenho pensando muito nesse tema, ultimamente. Uma amiga recomendou um livro, A Era da Loucura, de Michael Foley. O autor afirma que a sociedade do século 21 transformou a felicidade numa meta absurda.

Tudo isso tem a ver, certamente, com as expectativas que são colocadas à nossa frente. A necessidade de preencher essas expectativas, de alcançar tais padrões de felicidade transforma muitos de nós em pessoas frustradas.

A minha edição do livro está a caminho e certamente renderá mais algum post aqui no blog. Por enquanto, posso apenas dizer que mais importante do que a nossa localização geográfica é o nosso estado de espírito.

Onde quer que a gente esteja, o importante é estarmos completos e inteiros. Se temos aquela sensação de pertencimento, mesmo que seja longe da nossa terra natal, não temos angústias, nem dúvidas. Vivemos apenas com a certeza de que teremos dias bons e ruins. Podemos, sim, e devemos ter o direito a um dia infeliz.

Fazer uso, eventualmente, de algum ansiolítico não é problemático. O difícil é quando esse uso é a única maneira de encarar mais um dia de nossas vidas.

***
Comecei esse post falando sobre os 20 anos porque na volta para casa, viemos escutando Wonderwall, do Oásis, e por acaso essa música tocou no rádio pouco antes de eu escrever esse post. Eu acho essa canção linda e triste.

Comentários

  1. Oi Bela
    minha amiga tão querida e especial pela sensibilidade em observar e escrever sobre o mundo ao seu redor. Tudo que sei é que adoro aquela frase que diz"Tudo é uma questão de manter a mente quieta a espinha ereta e o coração tranquilo..." sempre que posso repito.
    Parabéns pelo blog, vc nasceu prá escrever
    Beijo
    Tete

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    1. Ei, Tetê! Que bom te ver por aqui! eu também adoro essa frase! Quando vim para Brasília, na minha despedida, o marido de uma amiga repetiu várias vezes. é um mantra muito especial e que realmente ajuda a enfrentar qualquer situação. Valeu Tetê pelo carinho e pela tua sensibilidade também! Beijão e saudade

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  2. Belinha, adorei o texto e compartilho suas observações. Muito bom sempre ler seus textos. Como disse a Tereza aí em cima, você nasceu pra escrever! Beijão!

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    1. Valeu Myloca! Quem sabe assim animo e engato de vez a vida de escritora? Beijão

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