Esqueceram de mim (ou quase isso)

Moro há 13 anos no Chile e, desse período, levo quase metade do tempo trabalhando no mesmo lugar. Comecei como freelance e hoje sou contratada. Depois da pandemia, a empresa adotou o sistema híbrido de trabalho: vamos um dia presencial e outro remoto. Alguns colegas com mais tempo de serviço - como eu-, nunca voltaram presencialmente. Já pedi várias vezes para trabalhar totalmente remoto, mas em todas a resposta foi um redondo não.


No dia 20 de maio, quando completei 50 anos de idade, era dia de jornada presencial. Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Ninguém me deu os parabéns. Toda vez que alguém está de aniversário, mandam um e-mail coletivo para que todos cumprimentem o aniversariante do dia. Justo no meu dia, a pessoa responsável pelo envio, não mandou aquele e-mail.

Alguns colegas, inclusive, ganham balões no posto de trabalho, com direito à torta e cumpleaños feliz a pleno pulmão. Eu não ganhei absolutamente nada disso. Foi muito chato porque na semana anterior uma colega esteve de aniversário e foi exatamente assim que celebraram o dia dela. Ela é estrangeira como eu, argentina. O único porém é que ela faz parte do círculo social de uma das sócias da empresa.

Não sou uma grande entusiasta do trabalho presencial, mas cumpro com a minha parte e vou. Só que quando esse tipo de coisa acontece, aí é justamente quando eu me pergunto: por que somos obrigados a vir? Se nem no dia mais importante das nossas vidas, essas pessoas lembram que eu existo?

Passei a manhã inteira com vontade de chorar, mas me segurei. Uma das minhas manas, a Mili, disse: não dá esse gostinho pra eles. Não dei, mas fiquei triste sim. Meu dia começou a melhorar quando saí do trabalho e fui almoçar com o Cristián. Aliás, meu dia estava ótimo antes desse gelo no trabalho. Minha família e meus amigos no Brasil, lá de longe, estavam mandando todo o carinho desde cedo com mensagens de amor.

Por alguns momentos, esqueci dos perrengues da vida de imigrante que incluem passar essas datas longe de quem a gente realmente ama e para quem a gente realmente importa. Lógico que tenho aqui o Cristián e a Gabi, que são a minha família, além das amizades, que são poucas, mas nunca falham. Mas é natural que a gente fique mais emotivos nessas datas. Esse ano, especialmente, na véspera, me peguei pensando que já são 23 aniversários sem a presença do meu pai. E doeu. Muito.

Depois do almoço, minha cunhada postou uma mensagem de parabéns numa rede social e, como é de costume, eu compartilhei. A partir dali alguns colegas perceberam que era meu aniversário e começaram a chegar as mensagens, telefonemas e e-mails pedindo desculpas. Como ninguém lembrou, para mim ficou aquela sensação amarga de que: tudo bem, ninguém lembrou mesmo. Agora, tanto faz...

De noite, recebi minhas queridas amigas aqui em casa. Brindamos, rimos, conversamos e nos divertimos como sempre. Foi uma noite super agradável e elas salvaram esse 20 de maio, apesar do frio (do clima) e da frieza (dos meus colegas de trabalho).

No dia seguinte, escapada com a família para a montanha, mantendo a nossa tradição que já leva alguns anos de respirar ar puro nessas ocasiões. Como se fosse possível purificar a alma ao estar livre da poluição. No próximo texto, conto para vocês como foi essa aventura. Hoje, eu só queria mesmo que vocês lembrassem de mim.

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