Duas vezes em que não usei meus direitos trabalhistas no Chile
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| Photo by Markus Winkler on Unsplash |
Existem leis trabalhistas no Chile? Existem. Todos respeitam essa legislação? Nem sempre. Entre o que diz o papel e que a realidade permite há um longo caminho. A verdade é que a legislação trabalhista no Chile deixa muito a desejar em comparação com a famosa CLT brasileira. Isso porque na ditadura militar o Plano Trabalhista adotado levou a que, atualmente, apenas 8% dos trabalhadores chilenos negociem coletivamente e 74% ganhem menos de US$ 400.000 líquidos, segundo dados da Fundación SOL.
O trabalhador é uma força individual que deve negociar diretamente com o empregador. Sem uma negociação coletiva, como categoria, fica muito difícil medir forças e, quase sempre, quem paga o pato é o lado mais fraco dessa equação.
No meu caso, tive dois momentos em que senti na pele essa fragilidade. A primeira foi quando abri mão do meu direito, previsto em lei, de amamentar minha filha. No Chile, as mães trabalhadoras têm o direito de amamentar seus filhos, mesmo que não haja creche no local de trabalho. Se ambos os pais trabalham (meu caso), qualquer um deles pode exercer esse direito. A legislação beneficia todas as mulheres trabalhadoras com filhos menores de dois anos, que têm direito a pelo menos uma hora durante a jornada de trabalho para alimentá-los, seja amamentando ou com fórmula infantil. Para todos os efeitos legais, esse tempo será considerado tempo trabalhado.
Eu trabalhava numa agência quando a Gabi ainda mamava e tinha um ano e quatro meses. Levava o meu extrator e ficava no banheiro tirando leite que, muitas vezes, tinha que jogar fora porque não dava para aproveitar. Eu saia 10 minutos antes para pegar o metro e chegar em casa para dar o peito para minha bebê. TODOS os meus colegas me olhavam de cara feia. A minha chefa tinha um filho pequeno e era absolutamente indiferente.
Com o tempo, percebi que, qualquer direito para as mulheres que têm filhos no Chile vale apenas para uma determinada classe social. As outras mães precisam se virar. Ninguém quer saber como, mas o seu dever é encontrar uma solução e não encher o saco. Os colegas, principalmente se não tiverem filhos, são os piores. Porque eles não te apoiam e como baratas viciadas em inseticida apoiam os chefes, obvio. Vivi isso na pele por alguns meses e não aguentei.
Atualmente também poderia estar usando a legislação trabalhista chilena em meu favor, mas fui aconselhada a não fazer isso para não ficar muito visada. O que diz a lei? A lei estabelece o direito ao trabalho remoto ou teletrabalho para todos os trabalhadores que tenham filhos menores de 14 anos sob seus cuidados. É exatamente esse o meu caso. Sou a principal cuidadora da minha filha e a função que eu exerço poderia perfeitamente ser totalmente executada de maneira remota.
É, meus amigos. Nesse dia 1 de maio, valorizem os direitos trabalhistas e saibam que, em muito lugares, eles existem apenas numa folha de papel.

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